CRAS de Ouro, selecionado para apresentar “Relato de Experiência” no IV Seminário Estadual de Gestores e trabalhadores da política de assistência social
No ano de 2012 a equipe técnica do CRAS de Ouro assumiu os trabalhos após concurso público (o município conta além da equipe mínima, com o trabalho da Pedagoga do CRAS). A experiência apresentada foi desenvolvida pelo CRAS de Ouro de forma contínua desde o ano de 2012, a partir da busca ativa das famílias.
No início havia muita resistência da população usuária, sendo que neste período muitos homens da comunidade estavam detidos em razão de brigas familiares e comunitárias. A comunidade de Santa Lúcia era conhecida em toda a região pelo seu alto índice de violência e pela forma agressiva da resolução de conflitos.
A equipe técnica, que não conhecia a realidade do município, optou pelo mapeamento territorial casa a casa antes de iniciar seus trabalhos, onde entrevistávamos os usuários, levantávamos as principais demandas, bem como, identificávamos muitas vulnerabilidades que eram desconhecidas por alguns setores da administração.
Com o mapeamento, identificamos que a comunidade era dividida entre os agricultores de famílias tradicionais de Santa Lúcia, e novos moradores, os quais eram provenientes de outros municípios e que estavam em Santa Lúcia a trabalho. Todavia, para os homens havia emprego, embora informal e sem assegurar direitos aos trabalhadores em sua maioria. As mulheres, em sua maioria, donas de casa.
Observamos que a negligencia materna era muito grande. As mães e responsáveis familiares em situação de vulnerabilidade social, ou tinham os companheiros detidos, ou, tinham companheiros que permaneciam durante toda a semana em acampamentos para o corte de erva. Todavia, as sextas-feiras, quando os companheiros que estavam trabalhando voltavam para suas residências, as mulheres atendiam seus filhos, evitando que não permanecesse muito tempo pelas ruas, realizavam a higiene nos mesmos, limpavam as casas… Neste período ainda tínhamos moradores em casa de lona e chão batido, com utilização de patentes.
Mediante estes fatos observados e elencados com o mapeamento territorial, iniciamos o encaminhamento aos setores responsáveis pelo atendimento, e iniciamos um grupo de PAIF. Nitidamente, desde o primeiro grupo de PAIF, o cuidado das usuárias com os domicílios e com os filhos melhorou de forma significativa.
A presença masculina nunca foi expressiva nos grupos, em razão da característica da comunidade, onde os homens estão presentes somente aos finais de semana.
Durante o acompanhamento do grupo, tivemos muitas dificuldades em tornar as famílias participativas. Iniciamos então algumas atividades diferenciadas, como piqueniques, passeios, viagens, e aos poucos, usuários que já haviam sido convidados e não freqüentavam passaram a se interessar e participar.
Fato bastante característico da comunidade atendida é que o grupo que acompanhávamos era composto em sua maioria por apenas duas famílias biológicas, todavia, as famílias não se relacionavam, não demonstravam sentimento de pertença, e não havia sequer, em algumas situações, diálogo. Salienta-se que as pessoas que não tinham ligação genética, eram comadres (madrinhas de nascimento, casamento…)
Gerava-nos preocupação o fato de estas mesmas famílias terem uma convivência muito conflituosa (chegando a se apedrejarem, e atirarem um contra o outro) na comunidade, e dentro do espaço físico do CRAS, serem tão passionais e de boa convivência. Conforme o grupo era desenvolvido, a convivência era melhorada, e alguns assuntos que eram resolvidos anteriormente através da agressividade passaram a ser resolvidos no espaço físico do CRAS, onde as famílias nos procuravam e solicitavam auxílio para a resolução de seus problemas.
Durante este ínterim, precisamos realizar algumas visitas domiciliares noturnas, realizar encontros noturnos e atividades aos finais de semana. Também “premiamos” as pessoas que participavam dos grupos semanais. Realizamos passeios para o museu, conhecemos o cinema, o mar, conhecemos as cataratas de Foz do Iguaçu, templo budista…
Observamos que durante todo o acompanhamento, levamos 3 anos para que as mulheres passassem a conviver entre elas de forma agradável. Que durante alguns passeios a solidariedade passou a ser vista… Começaram a se visitar… Não tivemos mais situação de apedrejamentos, brigas nas ruas…
Através do trabalho do CRAS conseguimos levar Polícia Civil para conversar com a comunidade, Polícia Militar a fim de evitar que a criminalidade voltasse, levamos promotor de justiça para visitas domiciliares, realizamos intervenções com o Conselho Tutelar, com equipe de gestão…
Atualmente, muitas famílias já foram desligadas, mas continuam freqüentando o CRAS quando vão para a cidade. Utilizam o espaço do CRAS, descansam e lancham, evitando a permanência nos bares como acontecia.
Com o relato dessa experiência o Município de Ouro/SC foi selecionado para relatar a experiência de “Boas Práticas na Política de Assistência Social” no IV Seminário Estadual de Gestores e Trabalhadores da Política de Assistência Social, que será realizado nos dias 18, 19 e 20 de maio de 2015 em Florianópolis, sendo o único Município do Estado de Santa Catarina à apresentar um Grupo de PAIF (Programa de Atenção Integral a Família), principal serviço ofertado pelos CRAS.
( Cras- Ouro)
